Final

- TCE - Tratado Cosmológico Espacial

 

BIOGRAFIA  de PLÍNIO CÉSAR de ALVARENGA [em PDF]

 

Plinio César de Alvarenga nasceu em 22 de novembro de 1955, na cidade de Belo Horizonte – Estado de Minas Gerais – Brazil. Filho de pais mineiros também... Uai!!

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Plínio César em seu reduto fazendo anotações - 1985.

(QG1-Campinas - SP)

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 - Sua história começa antes de falar ou andar... E vai até o início desse trabalho .

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UM  OBSERVADOR  NATO

Lembro-me bem das primeiras observações no colo de meu pai quando ainda só completara um ano de idade. Eu via, assustado, através da janelinha da porta principal de entrada, a chuva forte que caía lá fora e a enxurrada que descia a rua levando objetos não identificados com ela... O medo talvez viesse da possibilidade de alguém estar sendo levado pela correnteza de lama, que encobria a rua e a calçada.

Relâmpagos e trovões, junto com o barulho dos pingos no telhado, justificavam o meu espanto, que marcou para sempre o início da vida de “um observador nato”.

Daí para frente, foram sendo registrados em minha memória, muitos fatos interessantes... Lembro-me, por exemplo, de uma planta enorme no jardim da frente da casa que, quando foi retirada, apareceram muitas minhocas enormes, que para meus irmãos mais velhos, eram verdadeiras cobras que representavam algum perigo para nós... Outro fato espantoso memorizado.

Dessa época em Manhuaçu-MG, década de 50, tenho lembranças de um bicho (porco) num cercadinho de madeira nos fundos da casa, pelos ruídos que produzia... E a maior, no dia da sua execução... Lembro-me também de um tanque de roupas, onde via minha mãe “surrar” panos em sua beirada... Tinha medo de ser alguém sendo maltratado; outro espanto!

Interessante notar que os registros significativos estão conservados na “salmoura da adrenalina”.

Meu pai já havia trabalhado por 13 anos no Banco de Crédito Real quando prestou e passou no concurso do Banco do Brasil... Mas, ficara impedido por dois anos de ser chamado, por causa de uma cicatriz mínima, que na chapa dos pulmões aparecia. Herança remota de quando ainda tinha seus 18/19 anos em Ponte Nova onde, alem de estudar, trabalhar e farrear, jogou futebol profissional no time naquela cidade. Foi a porta aberta para uma pleurisia pulmonar.

Quando finalmente conseguiu ingressar no quadro de Escriturários do Banco do Brasil (um dos melhores empregos no Brasil na época), foi nomeado para exercer suas funções naquela cidade de Manhuaçu-MG.

Maiorzinho um pouco, na faixa dos três anos, as lembranças são bem maiores e mais detalhadas, claro!

Muitas histórias desse período eu tive o privilégio de lembrá-las, porém, aqui será narrado apenas um episódio muito significativo, que tem relação direta com o observador nato.

 

A PRIMEIRA  EXPEDIÇÃO

Papai havia sido transferido para a cidade de Carangola-MG e a mudança toda ocorreu alguns dias depois do natal de 1958. Era um dia quente de Sol majoritário... Mamãe estava entretida com a chegada dos móveis e utensílios gerais, por um caminhão de mudanças, que, um minuto de descuido foi o suficiente para eu escapar com o velocípede novinho do irmão mais velho e sair ao reconhecimento da nova cidade...

Não tinha tamanho suficiente, ainda, para que meus pés alcançassem os pedais do triciclo, e poder pedalar sentado no banquinho mas podia empurrá-lo pelo guidom, caminhando a pé ao seu lado.

Vestido apenas de um shortinho limpo, ia um menininho loiro, branquinho e narizinho arrebitado... Logo virava a esquina e seguia por uma rua comprida, sem olhar para trás... Estava tomado por uma emoção imensa, inesquecível!

Creio hoje que passava inconscientemente, a quem me via, uma imagem de menino rico e imolestável...

Vi pessoas para lá e para cá, outras sentadas nas calçadas, cavalos e cachorros, bares, lojas com coisas em balaios perto das portas, veículos estranhos como caminhão e carroças cheios de bagulhos...

Mesmo admirado com tantas novidades, continuava caminhando... Não percebi que já havia saído da cidade, e que tinha adentrado uma estrada de terra, onde já quase não se viam casas e coisas... Muito mato!

Olhando sempre para os lados, avistei uma casinha de madeira no alto de um morro próximo, que tinha uma chaminé de onde subia uma fumaça, algo muito estranho... De repente, apareceu uma mulher de saia longa e com um pano na cabeça que, saindo da casa, fitou-me... Lembro-me, perfeitamente, do momento em que ela, parada com as mãos na cintura, resolveu descer o morro em minha direção...

Foi a minha primeira sensação de perigo! Algo por dentro simulava um alarme! Principalmente porque eu tinha a impressão de que ela vinha com algo na mão, podendo ser um pau ou até uma faca.

Assustado, olhei para os lados e só via mato e um pequeno trecho da estrada de terra, pois estava exatamente numa parte em curva.

O sangue deve ter subido junto com um grande medo... Comecei a chorar! Nesse instante, surge repentinamente um ônibus urbano, que pára próximo, enquanto eu ainda acompanhava cada passo daquela misteriosa mulher, que parou quando viu o motorista descer do veículo. Sem falar nada, acolheu-me em seus braços, pegou o triciclo e nos levou para dentro do carro. Salvos e alojados junto ao motorista, passei a curtir a mais nova e emocionante aventura, um grande passeio por toda a cidade, enquanto aquele bom homem procurava insistentemente a minha casa.

Não foi fácil para ele porque estávamos acabando de chegar naquela cidade e, evidentemente, ainda não éramos conhecidos. Mas aquele rapaz não era tolo e sabia que aquela criança estava perdida e não era de nenhuma família conhecida. Hoje sei como era grande a sua responsabilidade em entregar-me são e salvo aos meus pais...

O curioso, é que, quando finalmente encontrou a minha casa, e ao tentar entregar-me à minha mãe, que sofria há mais de 4 horas com o meu desaparecimento, esperneei e gritei para continuar ali com ele e passear mais um pouco pela cidade...

Essa foi a minha primeira expedição solitária sem o amparo de meus pais; salto para uma espécie de independência paternal e um aumento do meu interesse natural pelas coisas do mundo e da natureza em geral.

 

O  MEU  NOME  E  AS  TENDÊNCIAS

Modéstia à parte, meus pais foram muito bonitos. Meu pai era um rapaz de 1.80, moreno de olhos verdes, cabelos pretos e lisos, somados ao seu porte atlético de ex-jogador de futebol. Minha mãe era simplesmente Linda!

Quando nasci, eu estava tão moreninho e parecido com ele, que minha mãe resolveu me batizar com o seu nome, que combinado com o segundo nome do meu avô materno, Augusto César; ficou Plinio César.

Esse meu avô, embora estudasse medicina, era apaixonado por eletrônica e pelas novas tecnologias. Mesmo sem ser engenheiro ou técnico eletrônico, montou e calibrou seu próprio equipamento valvulado de rádio amador e sua antena direcional...

Por influência genética ou espiritual? Só sei dizer, com certeza, que sempre tive uma predileção ou “Dom” para a eletrônica e suas infinitas possibilidades para criações de soluções práticas, para os problemas do cotidiano das pessoas de hoje.

A impressão que tenho é que já viajei por dentro de um condutor elétrico de um circuito eletrônico, e que muita dessa energia ainda circula pelo meu corpo através das veias...

 

EM  BRASÍLIA - A  NOVA  CAPITAL

Em 1960, ainda como funcionário do Banco do Brasil, meu pai aceitou o desfio de ir para Brasília, a nova capital ainda em construção. Apesar de três filhos ainda pequenos, um ponto incentivador foi a famosa “dobradinha”; receberia o salário em dobro! Foi muita coragem e determinação dos meus pais.

Já no Distrito Federal (DF), moramos por algum tempo em casa de madeira, num acampamento do Banco do Brasil na “Cidade Livre”, atual cidade satélite do Núcleo Bandeirante, enquanto se construíam conjuntos habitacionais para os funcionários; belíssimas “Superquadras” com seus confortáveis apartamentos funcionais.

Nesse período, apesar do pouco conforto, da poeira de terra vermelha e da lama quando chovia, minha mãe ficou grávida de gêmeos... Homenagem à dobradinha salarial!?

Lembro-me de que o Rodrigo e o Rogério nasceram quando ainda morávamos nesse acampamento e dos sufocos diários que mamãe passava com eles...

Eu brincava muito ali por perto com meninos da minha idade, rolando filtros de óleo de caminhão amarrados com arame e barbantes; tratores improvisados...

Lembro-me também do meu quinto aniversário e do tremendo bolo no formato de um navio, todo decorado com glacê de limão endurecido... Adoro esse tipo de cobertura até hoje.

Antes de mudarmos em definitivo para a bela Superquadra Sul (SQS308), chegamos a morar em uma sala comercial, que ficava  sobre a agência do Banco do Brasil, na avenida W3 Sul (CS507). Lembro-me bem dessa época, pois foi ali que papai comprou a nossa primeira TV em preto e branco (GE20).

Havia, enfim, chegado o dia da mudança para o apartamento... Papai precisou mudar, pressionado pelo banco para desocuparmos a sala e estabelecerem ali o departamento de crédito agrícola (CREAI). Mudamos com o prédio ainda em obras, fase final de acabamento e limpeza geral; havia muito pó e até “X” no meio das grandes janelas de vidro.

Era um belo imóvel funcional, com três dormitórios, área de serviço e dependência de empregada... Precisamente no terceiro andar, apto. 304, do bloco “A”. Logo o prédio foi todo ocupado por funcionários do banco vindos de todas as regiões do Brasil, do Nordeste principalmente.

Esse fato é interessante, pois ele propiciou uma significativa influência na minha formação intelectual, e como um todo, a base da sociedade brasiliense que se formou. 

 

A  MISCIGENAÇÃO  DAS  MISCIGENAÇÕES

Não é bobagem acreditar que no Brasil os brasileiros legítimos e naturais sejam os indígenas. Então, cresce a consciência de que todo o povo brasileiro é fruto de alguma mistura de raças, vindas de todas as partes do mundo... Formando colônias regionais com predominância espanhola, italiana, alemã, japonesa, chinesa, polonesa, inglesa, portuguesa, holandesa, africana, árabe etc, que por sua vez, se misturaran-se pelas colônias, capitanias e nos estados brasileiros. Naturalmente formaram novas sub-raças como: Mineiros, Paulistas, Sergipanos, Gaúchos, Goianos, Cariocas etc. Cada um com suas características e costumes próprios.

Na construção e ocupação de Brasília, ocorreu uma nova migração desses grupos étnicos espalhados pelos país, os verdadeiros pioneiros  para a colonização da nova Capital Federal. Lá, os baianos se casam com cariocas, paulistas com mineiros, pernambucanas com goianos... Novas miscigenações!

“... lá estarão povos de todas as nações, de todas as tribos, de todas as línguas”.          (Apocalipse)

 

A SUMA  DAS  RAÇAS

A partir da década de 70, iniciou-se, ao meu ver, a formação da verdadeira sociedade brasiliense. Quando a primeira geração dos nascidos em Brasília começou a casar entre si e dessas uniões surgiu, juntamente com os filhos, uma nova e "exclusiva sociedade". Exclusiva por serem todos descendentes de alguma mistura de raças estrangeiras.

Um outro tempero dessa salada mista de “genes”, é o fato de existir em Brasília, uma representação de todos os países que o Brasil mantém relações comerciais. São as “Embaixadas” habitadas normalmente por estrangeiros, originários dos seus próprios países em representações diplomáticas. E que, muitas vezes, acabam se casando com brasileiros locais.

 

FIM DA  LIBERDADE  INFANTIL

"Fui crescendo... Fui crescendo...

Quando mudei de idade;

Acabou-se a liberdade...

Um menino independente;

Com um lápis e uma sacola,

Mamãe me pôs numa escola...

Outro mundo diferente! "

 

NOTA: Parte de poema “EU e MAMÃE” de Jansen Filho

Com apenas 6 anos, sem saber ler e escrever, vi-me dentro da sala de aula em uma “Escola Classe”, perdido! Mas, por algum acerto prévio, a professora me mantinha na primeira fila e assessorava-me constantemente.

 

UM  OBSERVADOR  MÍOPE

Quando já era autossuficiente para ler e escrever as anotações do quadro negro, fui aos poucos sentando nas carteiras mais afastadas da frente, mas não estava mais conseguindo enxergar direito... Fiquei nessa dificuldade por muito tempo ainda, até que o grau de miopia ultrapassou a -1,5graus e o jeito foi usar óculos... Algo que me incomodou um pouco.

Já estava gostando da escola, da professora, dos colegas e da merenda, quando papai resolve mudar para uma casa, talvez por causa dos gêmeos danadinhos e bagunceiros. Por várias vezes foram encontrados pendurados na janela ou brincando de cavalinho na persiana de alumínio do quarto, quando não jogavam tudo pela janela, inclusive o colchão do berço.

Mudamos da SQS308 para um conjunto de casas geminadas na SQS714, também do Banco do Brasil. Ficavam bem próximas do limite da Asa Sul, onde expedições pelo cerrado eram programas costumeiros, com a nova turminha de amigos. Chegamos a descobrir perto, do cemitério da cidade, uma bela e copada árvore, onde cada um tinha seu galho preferido. E com ajuda dos mais velhos, pregamos tábuas em pontos altos e estratégicos, para ficar sempre alguém em observação por todas as direções...

Um dia eu e J.R. estávamos à caça de um “tiú” (uma espécie de lagarto grande) que entrava nas tocas das corujas para comer seus ovos. Notei uma ponta de papel impresso que saia da terra vermelha no meio do mato. Ao puxá-la, verifiquei que era uma nota de Cr$5,00 (cinco cruzeiros), ainda com a estampa de indígenas brasileiros... Começamos a cavar com as mãos e, a cada movimento outras notas iam aparecendo... Era uma pequena mina de dinheiro! Não ficamos ricos, mas custeou muitas garrafas de coca-cola família (1 litro+-) e pacotes de biscoitos, que levávamos para o nosso esconderijo que chamávamos de “Casinha”.

É interessante revelar que não comentamos com os outros amigos da tal da mina, e caladinhos íamos retirando o dinheiro, o suficiente para comprar os comestíveis no dia seguinte... Até o triste dia em que não encontrarmos mais nada.

Como era bom aquele tempo... A nossa liberdade era quase tota e nenhuma vez eu me lembro de trazer problemas para casa, como brigas e prejuízos materiais.

 

O  ALUNO  MALUCO?

Como na SQS714 não existia uma ‘Escola Classe', meus pais me matricularam na escola da SQS114, também do Banco do Brasil, maior e mais bonita em estilo arquitetônico que a da SQS308. Estava no 2ºano primário e lembro-me bem da professora (dona Dirce). Um dia ela tirou licença gestante...

Fiquei supertriste! Eu Adorava aquela professora, isso eu não me lembro por quê...

A sua substituta era uma mulher alta e muito severa e, provavelmente, com pouca pedagogia infantil, pois diante das minhas argumentações e atitudes, incomuns para garotos da minha idade, chamava-me de “maluco”... (no bom sentido, eu creio). Ainda com a nova professora, chegou o mês de junho e havíamos combinado de organizar uma festa junina... Na semana do evento, a professora ficou doente e se ausentou da escola, justo às vésperas da preparação da festa...

Quando a diretora veio à sala para avisar e dar alguma atividade para nós, eu a interpelei perguntando se nós mesmos poderíamos organizar a festa junina... Meio ressabiada, mas diante de uma demonstração de autoconfiança e interesse da maioria, permitiu!

Passamos o restante do tempo reunidos, combinando tudo... Divisão das tarefas como: quem traria o quê, quem faria o que e etc. No dia da festa, decoramos a sala com bandeirinhas e balões feitos de revistas e jornais, cercamos os cantos com carteiras, para improvisar barracas de comida, bebidas e pescaria. Havia até adotado um sistema de “cotas” fixas para cada aluno, em substituição ao dinheiro verdadeiro.

Foi um sucesso! Não do ponto de vista de fartura ou perfeição, mas tivemos comidas, bebidas e brincadeiras.

A diretora, que não havia posto muita fé, ficou surpresa e emitiu depois muitos elogios. Alguns dias depois, estávamos todos no horário de “recreio” quando eu brincava de pega-pega com outros meninos e vi a professora substituta no meio do pátio, cercada por alunos a cumprimentá-la. Ela fez uma varredura visual por cima de todos  a sua volta, como que procurando alguém e, ao me ver um pouco afastado a observá-la, dona Leda balbucia meu nome e, imediatamente, vem em minha direção. Quase impedida, chega até mim, abraçou-me e beijou-me. Fiquei tão emocionado, que sai correndo de braços abertos e imitando barulho de avião... Como esquecer fatos assim?

No segundo semestre desse mesmo ano, fui transferido para o Colégio Notre Dame, recém inaugurado na QS914, bem mais perto, onde eu podia ir e voltar sozinho. Muitas vezes, eu ficava esquecido de castigo estudando catecismo... Eu era quase sempre encontrado pela madre superiora, que quando me via, olhava espantada e perguntava-me:

- O que está fazendo ai?!   Não vieram buscá-lo?!

 

MUDANÇAS  E  MUDANÇAS...

Na terceira série primária, já estava em outra escola de padres e freiras; Colégio Nossa Senhora do Carmo, também relativamente perto para ir e voltar a pé... Era um colégio grande, com dois andares, todo construído em madeira. No centro, havia uma quadra de esportes, como futebol de salão, vôlei ou handebol e, em volta da dela, havia bancos móveis que podiam ser armados e desarmados. Entre o assoalho do primeiro pavimento e o piso atrás desses bancos, existia um vão suficiente para um garoto passar agachado. Um dia observei, junto com dois colegas, que existia uma passagem de acesso à cantina por baixo do madeiramento do piso... Sempre antes das aulas começarem, e por uns 15 minutos após o término, o padre diretor ficava parado em frente à quadra interna, observando a movimentação de entrada e saída dos alunos.

Uma vez, resolvemos fazer uma visita experimental àquela cantina... Ficamos sentadinhos no banco, como que esperando nossos pais e, após um tempo suficiente para o diretor se retirar para a sua sala, pulamos no chão e, rapidamente, adentramos o labirinto meio escuro até chegarmos à um buraco na parede que, finalmente, dava acesso ao  bar... Foi uma pequena festa regada com refrigerantes “Zupa” e guloseimas da Lacta e Campineira... Mas logo fecharam o buraco da parede e foi o fim dessa aventura inconsequente...

E quando tudo parecia estável entre escola, amigos e família, meus pais resolvem se mudar de volta para a SQS308, para um enorme apartamento, talvez o maior de todas as residências funcionais do Banco do Brasil (Bloco F-504). A casa toda cabia dentro da sala; tinha 4 quartos sociais e dois de empregada, sendo um  reversível, que aberto uma porta para o longo corredor, passou a ser o quarto do primogênito, Paulo Roberto. Minha irmã tinha também o dela exclusivo, papai e mamãe na suíte de casal com close e tudo... Eu fiquei com os gêmeos num outro, pois o quinto quarto virou sala de TV e musica, alojando um enorme piano que minha mãe e irmã tocavam.

Falando em piano, um fato interessante a comentar é que minha mãe, além da Escola Normal, estudou piano sua mocidade inteira e alimentou o sonho de seguir a carreira de pianista, mesmo depois de casada. Mas, com as ocupações do dia a dia, cuidar de filhos, de marido, da casa, dos seus alunos de piano etc., foi ficando impraticável.  

O amor e a paixão sempre falam mais altos!

As coisas do coração são simplesmente inexplicáveis... Mas estamos aqui ainda vivos e, a tempo de agradecer ao testemunhar histórias de amor, lutas, realizações, felicidades e momentos tristes também. A mais importante história, sempre será aquela que nos fecundou. Saber que existimos por um fruto do amor...

Quando completei 11 anos, ganhei do meu pai um violão de aniversário. Era um Gianini pequeno (nº2), mas eu e papai gostávamos de puxar uns acordes simples e tocar músicas populares, encontradas nas revistas especializadas.

Nesse aniversário optei por dar uma big “festa de arromba”, no salão do AP, regada ao som da jovem guarda, como Roberto Carlos, Rony Von, Wanderleia, Lenno e Liliam, Ronny Cord etc. Ainda não tinha namorada, mas era meio “gamado” na filha da vizinha.

 

A  ESCOLA  PARQUE

De volta à SQS308, e também à Escola Classe 308, entrei para as atividades curriculares da quarta série, pela manhã. À tarde, dessa vez, com novas atividades esportivas, musicais, teatrais, culturais e até artes industriais. Eram as atividades complementares do ensino público de Brasília, através da “Escola Parque”- uma escola maravilhosa! (só Juscelino...) Só hoje sei o privilégio que tive em estudar lá. Nos esportes tínhamos Futebol (campo oficial), natação (piscina olímpica, com 7 raias e 25 metros comprimento), judô, basquete, handebol, vôlei, saltos e etc. Musicais: canto para formar um coral da turma.

Aprendemos também a tocar vários instrumentos musicais e até formamos uma banda completa para apresentações. Teatrais: cursos de teatro; ensaiamos e apresentamos uma pequena peça, “O Circo”, onde interpretei um dos dois palhaços. Nas culturais, assistíamos a filmes, a shows e palestras no seu grande auditório, com capacidade para +-750 pessoas; sempre tinha alguma novidade a ser apresentada.

No pavilhão de artes industriais, aprendi a manipular argila, confeccionar objetos de arte e, no final, levar ao forno. Para os trabalhos com madeira, eu podia usar serra circular, desempenadeira, serra de fita, furadeira vertical, lixadeira e tupias. Inclusive, eu era um dos poucos da quarta série que podia usar aquelas máquinas sozinho.

Para metais tínhamos à disposição: dobradeira, guilhotina, ponteadeira elétrica, soldas e prensa. Fora os quadros com dezenas de ferramentas manuais. Só quem passou por lá sabe o que estou narrando. Para os alunos criativos, era um paraíso.

A única coisa ruim era que, todos os trabalhos que fazíamos seriam vendidos em feiras periódicas. Se queríamos o que fazíamos tínhamos que comprar.

 

O  COLÉGIO  MARISTA

Quando parecia que continuaria na rede pública para completar o 1ºgrau, minha mãe resolveu repetir uma experiência que havia dado certo. Minha irmã, Sandra, havia estudado a 5ªsérie mais completa no Colégio Irmãos Maristas, cuja professora era nossa vizinha de porta (apto.501). Sandra havia estudado aquele ano, juntamente com a filha dela, uma moça muito bonita quanto a minha irmã. A idéia era evitar fazer o curso de “admissão” da escola pública, incompleto.

Não deu muito certo. Aquela professora era muito séria e exigente, e eu rebelde com os estudos e muito bagunceiro na sala de aulas... Fui transferido para a turma da tarde, onde me livrei de acordar muito cedo e de chegar atrasado e perder aulas importantes... Mas a turma era bem mais fraquinha, e com isso deu para levar meio às brincadeiras e ainda passar no final do ano com média 5,6.

 

O  COLÉGIO  DA  CASEB

Apesar de ser da rede pública, tive um dos maiores privilégios de estudar em um ginásio tão sério e com os melhores professores da época... Juntamente comigo e meus irmãos, estudavam lá os filhos de senadores, deputados,  ministros e grandes empresários.

Foram 5 anos de muitas atividades curriculares e complementares em laboratórios de Física, Química, Biologia, Artes Industriais e Educação Física, de forma obrigatória.

Tínhamos, para as atividades esportivas, ginásio de esportes coberto, quadras completas, campo de futebol oficial, pista de corrida e saltos à distância e com vara.

Apesar de ser um bom aluno e chegar a ser por várias vezes  representante de turma, havia uma matéria em que eu sempre tive dificuldades, Português. E por 5 décimos (4,95), a professora me reprovou no 1ºano do ginásio. Foi um pouco de negligência minha também, pois preferi viajar de férias, ao invés de pedir revisão de prova...

Cinco professores me marcaram no CASEB: de Matemática, História, Desenho, Inglês e Ciências. Lembro-me mais destes porque eles deram aulas neste estabelecimento por muitos anos, foram inclusive professores dos meus irmãos também.

Como nessa época eu já ganhava meu dinheirinho com os consertos, houve uma fase em que gastava tudo com motos - alugava umas Yamahas de 50 ou 65 Cilindradas e saia pela cidade. Muitas vezes ia me exibir no colégio... Outro fato, a professora que havia me reprovado foi à mesma no ano seguinte... Ir à forra? Não! Os outros professores nunca a perdoaram por ter feito aquilo comigo.

Certa vez, ela dividiu a classe em grupos de 4 ou 5 alunos e cada um deveria preparar e apresentar para toda a turma, uma palestra. O nosso tema, por sorte, foi sobre as “Telecomunicações”. Então, preparei em casa todo o material: os textos, cartazes, um pequeno transmissor de “Código Morse” e um rádio transistorizado, foram montados na base de madeira de um kit “Engenheiro Eletrônico” (jogo didático) que eu possuía.

No dia, cada um leu uma parte da história da comunicação a distância, que falou desde os códigos de fumaça usados entre tribos indígenas, ao telefone, rádio e TV. Na demonstração prática, a professora ficou bastante surpresa, quando me viu manipular os códigos Morse no transmissor caseiro sobre a mesa dela, enquanto um outro colega segurava um radinho de pilhas no fundo da sala, de onde, “misteriosamente” (para os presentes), saiam os sons da mensagem que eu teclava transmitindo.

Era muito comum, naqueles 5 anos de CASEB, me chamaren-me de “cientista maluco”. Tinha um interesse incomum pelas aulas de ciências, principalmente as práticas nos laboratórios daquela escola. Adorava lidar com os tubos de ensaio, condensadores, pipetas, buretas, balanças... etc.

No laboratório de Física então! Eu entrava e não queria mais sair...

 

NOVA  MUDANÇA  DE  ENDEREÇO

Quando ainda cursava a 1ªsérie ginasial, pela segunda vez, no ano de 1968, O Banco do Brasil, através da sua Caixa de Previdência, resolve vender os apartamentos funcionais para seus empregados. Como morávamos no maior deles e, conseqüentemente, o valor seria “teoricamente” mais salgado, e o meu pai, aquele mineirinho pacato de pouquíssima ambição (para não dizer “nenhuma”), simplesmente recusou-se a assumir o compromisso da compra daquele imóvel. Começaram ali as desavenças familiares, com os constantes desentendimentos entre meus pais... Dizia ele:

- Os padrões de vida implantados pela Lea, são incompatíveis com o meu salário no Banco... Sou um mendigo engravatado!

Achando que viveria “afogado” para pagar aquele apartamento, resolveu sozinho, contra a vontade de todos,  comprar um outro menor... Optou por um na SQS114 (Bloco I-104).

Era um prédio construído originalmente para diretores do Banco do Brasil, porém, nenhum morava lá. Recebiam belíssimas residências às margens do Lago Paranoá.

Nossos vizinhos eram gerentes do BB, ministros do governo e alguns diretores do Banco Central, que moravam provisoriamente. Llembro mais do ministro das telecomunicações e um outro do Supremo Tribunal Federal. Dos gerentes, houve um que até chegou à presidência do banco. Os tempos de SQS114 foram os do meu despertar intelectual e profissional. Veio, definitivamente à tona, minha paixão por eletrônica, vontade de escrever livros de otimismo, ganhar dinheiro, namorar, curtir as musica “Pop” estrangeiras.

Ganhara um kit completo de eletrônica transistorizada, Engenheiro Eletrônico da Philips. Fiz meu primeiro curso por correspondência, em que estudei teoria e práticas de eletrônica... Já consertava rádios, TV's e vitrolas. Montei alguns amplificadores, pequenos transmissores de FM e um rádio super-heteródino AM/OM/OC valvulado e outros transistorizados.

Logo que mudamos, montei o meu primeiro laboratório, um verdadeiro esconderijo no vão entre a mureta e a unidade vazada (cobogó) da área de serviço. Esse espaço era normalmente usado para esticar varais de roupas ou guardar coisas, como um “despejo”. Ficava numa parte pouco usada e meio escondida. Meu canto era minúsculo! Mas passava horas fazendo experiências com insetos, plantas e misturas de produtos químicos diversos para ver o que aconteceria...

Tinha velhos livros e manuais de eletrônica a válvulas termiônicas. Ficava ali sozinho, por horas curtindo o lugar...

Com a quantidade de coisas que eu ia juntando como, peças, ferramentas, vidros, componentes eletrônicos e sucatas em geral, meu pai resolveu mandar fazer um armário com prateleiras, gavetas e portas com chaves, sob uma bancada de mármore da área de serviço.

Nessas alturas já ganhava dinheiro consertando eletrodomésticos dos amigos, vizinhos e colegas do papai. Gostava de desmontar qualquer aparelho elétrico ou eletrônico para estudar sua construção e o seu funcionamento; estraguei muitos aparelhos no começo... Mas chegou um dia em que comecei a recuperá-los e ainda “turbinei” alguns.

Passei a ganhar um bom dinheiro, já com 15 anos, participando de um pequeno clube de som, sonorização e iluminação em festas e bailes em clubes ou residências. Todas as partes técnicas da montagem, desmontagem e manutenção eram comigo.

Tinha muitas idéias interessantes que me perseguiam tanto, que cheguei a rascunhar um livro, intitulado: “Escravos dos pensamentos”, pois estava sempre a pensar em alguma coisa, mesmo quando não queria... Só depois, com bem mais idade, é que descobri a, “duras penas”, deixar de pensar por algumas horas... Não foi nada fácil!

 

NOVA  MUDANÇA  COM  O  ALUGUEL  DO  APARTAMENTO

Depois de iniciado o processo do “desquite”, papai recebe uma oferta boa de alugar o apartamento da SQS114 para o Banco Central, para um de seus diretores. Por ser um imóvel de alto padrão e muita segurança, o valor do aluguel era muito alto, e com ele, era possível alugar outros em superquadras mais simples pela metade do preço. Assim papai alugou um bom AP na SQS108-104 e, logo em seguida, um melhor de canto, o de numero 106.

Sem a minha irmã, que foi morar com minha mãe em Belo Horizonte, pude pela primeira vez nesta minha existência, ter meu quarto sozinho. Nesse quarto, eu possuía uma boa aparelhagem de som semiprofissional, uma pequena biblioteca, uma escrivaninha e uma bi-cama colonial... Era lindo! 

 

MAIS  UMA  MUDANÇA  COM  A  VENDA  DO  APARTAMENTO

Quando o desquite foi homologado e os bens terem que ser divididos, meu pai vende o apto. da 114, compra um de 3D na SQS105-H-601 e outro menor na SQS412, que ficou para minha mãe.

Mudamos para a 105. Eu e Paulo continuamos com nossos quartos individuais. A sala era tão grande, que papai resolveu fazer uma divisória de Lambri de Jacarandá da Bahia, criando um 4ºD para os gêmeos e, mais à frente, quando Paulo casou, para hóspedes e escritório.

Esse é o período mais longo de todos em Brasília, onde morei de 1973 a 1977. Muitos fatos ocorreram nestes anos... E como!

Mas, como o conveniente vem do inteligente, convém que eu descreva prioritariamente a chegada do T.C.P., e como começamos os trabalhos de pesquisas, que nos levaram à Teoria Cosmológica Espacial.

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A  CHEGADA  DE  TÚLIO

Minha irmã namorava em BH um rapaz alto, magro, olhos azuis e cabelos longos a quem costumava chamar de ‘TC'. Ele chegou a cursar engenharia mecânica na UFMG. Como o relacionamento dos dois não tinha o aval da mãe, resolveram mudar para Brasília, sem o consentimento dela. Ela veio primeiro e morou um tempinho conosco.

TC alugou um quartinho na W3 sul, mas com problemas de goteiras, humidade e desconforto... Sem ninguém se dar conta, o TC já estava morando com a gente, dividindo um quarto com meu pai. Mamãe inconformada com a atitude de SAMA (abreviatura do nome), com muita saudade dos filhos e também não gostando do trabalho na Caixa Econômica Federal de BH, voltou para Brasília com seu novo marido. Logo as duas se entenderam e minha irmã voltou a morar com eles.

No mesmo ano em que chegaram a Brasília, TC e SAMA fizeram cursinho, prestaram  e passaram no vestibular da UnB. TC para Física e SAMA para Engenharia Química. Os meus entendimentos com TC sempre foram positivos desde o princípio. Gostávamos de trocar idéias sobre diversos assuntos e principalmente de mistérios da natureza... Muitos papos incomuns e idéias começaram a brotar... Existia muita afinidade! Um dia após o jantar, TC bate na mesa com a mão fechada e fala:

- O Espaço é tão sólido quanto esta mesa!

Havia comigo um sentimento ressonante com aquela visão, porém, estava estranho e sem sentido, da maneira que ele se expressava... Passamos a discutir muito sobre isso. TC já estava procurando argumentos para formular uma “tese” sobre esse tema na sequência do seu curso de Física na universidade.   Todos que já vinham colecionando coisas “estranhas” proferidas por TC nem ligaram. Eu não! Suspeitava que o erro poderia estar apenas na forma como dizia, ou seja: as palavras que usava conflitavam-se ou escondiam verdades fundamentais... Desse fato, começou uma jornada que levou muitos anos para se juntarem muitas peças de um imenso quebra-cabeça... No final, pôde ser vislumbrado uma nova visão do Universo, bem detalhada na “Teoria”.

TC casou-se com SAMA, depois de uma gravidez inesperada, porém, de alguma conveniência, para não fugir à Lei. Com isso os estudos passaram para um segundo plano; prestaram e foram aprovados em um concurso da aeronáutica para integrarem a equipe de controle de tráfico aéreo brasileiro do CINDACTA. Ele, como “Controlador de Vôo”; e ela, de “Técnica de Informações Aeronáuticas”.

E, para assumirem os novos cargos, tiveram que fazer um curso de 2 anos no ITA, em São José dos Campos. Trancaram as matrículas de seus cursos na faculdade e mudaram para lá. Nesse meio tempo, eu havia, a trancos e barrancos, completado o segundo grau e vinha tentando uma vaga para engenharia elétrica e... Nada!

Me matriculei num curso de “Análises de Sistemas” que estava sendo oferecido para os estudantes de Administração de empresas, Economia e para quem se interessava por programação de computadores. Nele aprendi a programar “Main Frames” da Burrows B500, usando linguagens Fortran e Cobol, principalmente. Este modelo ainda fazia uso de cartões perfurados.

 

A PEDRA SABÂO

Durante uma viajem de férias para tentar reduzir um grande stress pela cidade de Ouro Preto-MG, apaixono-me por Pedra sabão e Pedra talco (Esteatita) e resolvo trazer de Minas Gerais a representação de uma fábrica de peças e detalhamentos coloniais com a tal pedra.

Montei sozinho uma empresa de revendas para os acabamentos, detalhamentos e revestimentos nobres em Pedra sabão e coloquei TCP como sócio, para exercer o cargo de diretor comercial quando eles voltassem de São Paulo. E quando voltaram do curso, procurou dar sua colaboração nas horas de folga na aeronáutica.

Dai para frente, não mais nos separamos. Chegamos a morar juntos no Cruzeiro Novo (bairro de Brasília), depois que SAMA voltou a morar com a mãe e a filhinha. Seu casamento não havia durado 3 anos... Infelizmente.

 

INICIO DO TCE

No Cruzeiro, começamos as primeiras discussões científicas e os registros de tudo que fosse importante. Inicialmente as anotações eram feitas em folhas papel avulsas e, posteriormente, em cadernos grandes pautados. Gravações em fitas de rolo 7" e em K7's de muitas conversas interessantes também foram adotadas.

Juntos com as corridas atrás do "papel moeda" para custear uma digna sobrevivência, virávamos noites atrás das respostas para grandes lacunas da Física em geral, até então existentes.

Entre encontros e desencontros, cadernos e folhas, fitas e telefonemas, revistas e livros, mesas redondas e debates, Fui juntando os pedaços do grande quebra-cabeça da ciência da natureza, infinitamente sábia!

Agora, depois de 35 anos de dedicação (praticamente sozinho) a essa 'missão', consigo ver o que já foi construido e o tanto que ainda falta a se fazer... Mas enquanto eu estiver encarnado e podendo, estarei colaborando para constuir um novo 'Castelo da Ciência", simples, sólido, atual e elegante!

Plínio César *

Atualização: 02-07-2017

A seguir, a folha de rosto do Tratado Cosmológico Espacial...

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